Por que evitar aquilo que causa medo pode fazer o medo crescer?

Quando alguma coisa provoca medo ou ansiedade, nossa primeira reação costuma parecer bastante lógica: evitar.
Se dirigir causa ansiedade, você deixa o carro na garagem.
Se falar em público provoca desconforto, tenta escapar das apresentações.
Se um lugar muito cheio causa medo, prefere não ir.
Se determinada situação já provocou uma crise de ansiedade, começa a fazer de tudo para não passar por ela novamente.
E quando você evita?
O medo diminui.
Pelo menos naquele momento.
É justamente aí que começa um ciclo que pode fazer com que a ansiedade permaneça — e, em alguns casos, aumente ao longo do tempo.
Evitar não significa fraqueza
Antes de entender esse processo, é importante esclarecer algo: evitar aquilo que nos causa medo é uma reação humana.
Nosso cérebro foi desenvolvido para nos proteger.
Quando percebemos alguma coisa como perigosa, o organismo se prepara para enfrentar a ameaça ou se afastar dela.
Se existe um perigo real, isso é extremamente útil.
O problema acontece quando nosso cérebro começa a tratar situações seguras como se fossem ameaçadoras.
Nesse momento, evitar pode trazer alívio imediato, mas também impedir que o cérebro descubra que aquela situação talvez não seja tão perigosa quanto imaginava.
O alívio pode ensinar o cérebro a continuar evitando
Imagine uma pessoa que sente muito medo de dirigir em uma rodovia.
Ela precisa fazer uma viagem, mas, alguns dias antes, começa a pensar:
"E se eu perder o controle?"
"E se eu tiver uma crise enquanto estiver dirigindo?"
"E se acontecer um acidente?"
A ansiedade aumenta.
Então ela decide não dirigir e pede para outra pessoa levá-la.
Imediatamente sente alívio.
Parece que o problema foi resolvido.
Mas o cérebro pode aprender uma mensagem diferente:
"Ainda bem que eu evitei. Talvez realmente fosse perigoso."
Na próxima oportunidade de dirigir, a ansiedade pode aparecer novamente.
E a vontade de evitar também.
É assim que começa o ciclo da evitação.
Quando o medo começa a diminuir nossa vida
No início, as mudanças podem parecer pequenas.
A pessoa deixa de dirigir na rodovia, mas continua dirigindo pela cidade.
Depois começa a evitar avenidas movimentadas.
Em seguida, evita dirigir à noite.
Depois, na chuva.
Até que começa a dirigir apenas por trajetos conhecidos.
Em alguns casos, pode chegar ao ponto de depender de familiares, transporte por aplicativo ou outras pessoas para realizar atividades que anteriormente fazia sozinha.
O medo não ficou necessariamente maior de uma hora para outra.
O espaço disponível para viver é que foi ficando menor.
Esse mecanismo não acontece apenas com o medo de dirigir.
Pode acontecer com elevadores, aviões, lugares fechados, animais, situações sociais, apresentações profissionais e diversas outras situações relacionadas à ansiedade e às fobias.
Mas evitar não faz a ansiedade desaparecer?
Geralmente, faz.
E esse é justamente o motivo pelo qual a evitação é tão difícil de abandonar.
Quando evitamos uma situação que provoca ansiedade, sentimos alívio.
Nosso cérebro aprende rapidamente:
"Quando eu fujo, eu me sinto melhor."
Na próxima vez que surgir uma situação parecida, ele sugere novamente a mesma estratégia.
Evitar.
O problema é que esse alívio costuma funcionar no curto prazo.
A longo prazo, a pessoa não tem a oportunidade de descobrir algo muito importante:
"Talvez eu consiga lidar com essa situação."
Existem formas de evitação que parecem proteção
Nem sempre evitar significa simplesmente deixar de fazer alguma coisa.
Às vezes, continuamos enfrentando a situação, mas criamos maneiras de nos sentirmos protegidos.
Por exemplo:
"Eu consigo dirigir, mas somente se alguém estiver comigo."
"Vou à reunião, mas fico perto da porta."
"Consigo viajar, mas preciso verificar tudo várias vezes antes."
"Vou ao evento, mas só fico se conhecer alguém."
Esses comportamentos podem oferecer segurança naquele momento.
Mas, quando se tornam indispensáveis, podem reforçar a ideia de que a pessoa só conseguiu enfrentar a situação porque estava protegida por alguma coisa.
Na psicologia, alguns desses comportamentos são chamados de comportamentos de segurança.
Então preciso enfrentar meu maior medo?
Não.
Essa é uma interpretação bastante comum — e importante de corrigir.
Tratar uma fobia ou um quadro de ansiedade não significa simplesmente dizer:
"Vai lá e enfrenta."
Muito menos colocar alguém diante do seu maior medo sem preparação.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), uma das estratégias que podem ser utilizadas é a exposição.
Ela consiste em ajudar a pessoa, de maneira planejada e progressiva, a entrar em contato com situações que passaram a ser evitadas.
O processo é construído considerando a história, as dificuldades e os limites de cada pessoa.
O objetivo não é eliminar qualquer sensação de ansiedade antes de agir.
É desenvolver a capacidade de perceber:
"Posso sentir ansiedade e ainda assim lidar com essa situação."
O cérebro também pode aprender segurança
Se nosso cérebro consegue aprender que determinada situação é perigosa, ele também pode desenvolver novas aprendizagens.
Quando uma pessoa entra em contato gradualmente com aquilo que teme e percebe que consegue permanecer naquela situação sem que a catástrofe imaginada aconteça, novas associações podem ser construídas.
Isso não significa necessariamente que o medo desaparecerá imediatamente.
Pode haver desconforto.
Pode haver ansiedade.
Pode existir vontade de desistir.
Mas, aos poucos, algo começa a mudar.
A pessoa deixa de organizar todas as suas decisões em função do medo.
E isso pode representar uma importante recuperação de autonomia.
Como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar?
Na TCC, terapeuta e paciente procuram compreender o ciclo específico que mantém aquela ansiedade.
Por exemplo:
Situação: preciso dirigir em uma avenida movimentada.
Pensamento: "Vou perder o controle."
Emoção: medo.
Sensação física: coração acelerado, tensão e respiração mais rápida.
Comportamento: evito dirigir.
Consequência imediata: alívio.
Consequência a longo prazo: manutenção do medo.
Quando esse ciclo fica mais claro, é possível trabalhar os pensamentos associados ao perigo, os comportamentos de segurança, a interpretação das sensações físicas e a aproximação gradual das situações evitadas.
O tratamento não é uma disputa contra o medo.
É um processo de aprendizagem.
Quando procurar ajuda?
Talvez seja importante buscar acompanhamento psicológico quando você percebe que o medo começou a determinar suas escolhas.
Quando deixa de viajar.
Quando recusa oportunidades.
Quando depende cada vez mais de outras pessoas.
Quando precisa planejar toda a rotina para evitar determinadas situações.
Ou simplesmente quando percebe que está cansado de organizar sua vida em torno da ansiedade.
Não é necessário esperar que o medo se torne incapacitante para procurar ajuda.
Um último lembrete
Evitar aquilo que provoca medo pode trazer uma sensação imediata de segurança.
Por isso fazemos isso.
Mas existe uma diferença importante entre estar seguro e sentir-se seguro.
Nem tudo aquilo que provoca ansiedade representa realmente um perigo.
E, algumas vezes, recuperar a liberdade começa justamente quando conseguimos dar pequenos passos em direção àquilo que aprendemos a evitar.
Não precisa ser de uma vez.
Não precisa ser sozinho.
E não precisa ser sem medo.
Coragem não é necessariamente deixar de sentir medo.
Às vezes, coragem é perceber que o medo está presente e, mesmo assim, começar a recuperar os espaços da vida que ele foi ocupando.